Natal da minha infância

NATAL NA MINHA ALDEIA

            Em 1951, ainda não havia chegado às aldeias portuguesas a figura nefasta do Papai Noel, digo nefasta por que veio eclipsar o Nascimento de Deus Menino. Ninguém dava presentes porque ninguém tinha nada para dar naqueles tempos de pós guerra. Se alguém oferecia alguma coisa, era presente do Menino Jesus.

Na Igreja era preparado um belo presépio que nos encantava como crianças que éramos. Como esta época é uma das mais frias em Portugal e na Europa, os penedos estavam cobertos de musgo, essencial para fazer o prado que circundava a gruta da manjedoura. Em geral eram os jovens que providenciavam este material trazido em cestos  dos rochedos dos montes. Os animais e figuras da Sagrada Família e pastores ou Reis Magos eram da própria paróquia e reaproveitados todos os anos, mas cada ano o Presépio tinha formato diferente. Era nisso que repousava sua beleza. Na nossa casa como em algumas das residências dos camponeses também se armava um pequeno presépio em homenagem ao Salvador do Mundo e durante o período natalino, o terço em família era rezado perto do presépio.

Nas décadas de 1940 e 1950 a palavra Natal era pouco pronunciada nas aldeias portuguesas e muitos a desconheciam. Consoada era a palavra apropriada para o Nascimento de Cristo nas freguesias montanhosas do Minho. O dia 24 de dezembro marcava a reunião da família com uma ceia de bacalhau com batatas e couves, regado a muito azeite, o que para nós era um banquete.  No frio invernal, as couves ficam extremamente tenras (macias), devido à geada tornando a ceia mais saborosa. A consoada era uma das poucas ocasiões do ano em que a comida era farta. Convivendo com escassez onde raramente sabíamos o que era encher a barriga, pois comia-se pouco e mal durante todo o ano, por isso esta ceia era uma dádiva  especial do Menino Jesus. Não era costume  comer castanhas, avelãs ou nozes, nesta época, pois essas frutas os camponeses tinham-nas à vontade nas suas propriedades, mas devido à pobreza vendiam-nas para a cidade. Era tradição nas aldeias fazerem-se rabanadas, formigos (espécie de pudim de pão), aletria e filhós.

No dia de Natal, todos íamos à missa, uma missa solene onde os jovens da Juventude Operária Católica entoavam as canções natalinas e além do presépio, os altares eram enfeitados com folhagens pois as flores eram escassas no inverno. De noite grupos de rapazes saíam cantando pela freguesia canções natalinas ou de folia de Reis. Paravam em cada casa, faziam referência ao dono que lhes retribuía com um presente qualquer.

 

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About ecologiaespiritual

Profesor universitário aposentado, professor da academia do Corpo de Bombeiros RJ desde 1977. Escritor, Diplomado pela ESG 2002, Geógrafo, mestre em geoquimica, consultor de áreas de risco geológico, diplomado pela Michigan State University em Proficiência em Inglês, Professor do Curso Superior de Bombeiros Militar autor dos livros Sobreviver sem perder a Esperança (sobre morte de filho), Ecologia Espiritual (uma história do Corpo de Bombeiros no Brasil), Treasures of Brasil, além de trabalhos/livros técnicos: Recursos hidricos do Estado do RJ, Geonit (fundação geotécnica de Niterói). Laudos técnicos sobre Escorregamentos na Enseada do Bananal - Ilha Grande e Bumba (niterói)
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