DESFOLHADAS

DESFOLHADAS

 

 

 

 

            Hoje que quase tudo é feito por máquinas, esquecemos o trabalho que nossos pais e avós tiveram na preparação do terreno, cultivo, colheita e pós colheita dos cereais. Antes de preparar os campos para lavrar com arado rudimentar puxado por vacas ou bois, havia de roçar o mato, trazê-lo em carro de vacas, forrar os currais com ele em camadas sucessivas ou acumulá-lo nos campos em medas, chamadas localmente de moreias. Espalhava-se o mato transformado em estrume, sobre o terreno a ser lavrado, era o único adubo utilizado, nem uma grama de adubo químico utilizavam por falta de dinheiro para o comprar.

            Lavar o terreno envolvia toda a família: um rapaz conduzia duas vacas puxando o arado, um homem, em geral o dono ou seu filho pegava a rabiça do  mesmo e revolvia a terra a cerca de 30 centímetro de profundidade, mulheres e crianças munidos de sacholas ou enxadas devastavam os torrões, fazendo com que o campo ficasse pronto para semeadura.

Semeava-se o milho e feijão junto. O Semeador e mais outa pessoa dividiam o campo em leirões fazendo pequenos regos que depois serviriam para regar a sementeira.

            Porém não era só esperar o milho crescer. Quando este tinha cerca de um palmo de altura, era necessário sachá-lo, isto é retirar as ervas daninhas e as plantas muito próximas umas das outras com a sachola, que nada mais era que uma enxada estreita. Isto envolvia toa a família e dava muito trabalho. Todas as semanas teria de se regar as semeaduras, mesmo quando as primeiras espigas estivessem brotando. Ainda quando o milho já estivesse amadurecendo se tirava o pendão para alimentar o gado.

            Uma vez a espiga madura, era hora da colheita. Homens e mulheres, munidos de foicinhas denteadas, cortavam um a um os pés de milho e os amarravam em molhos, estes eram colocados em medeiros, pequenas medas com vários molhos em pé. Se chovesse a água da chuva escorreria até o solo. Quando todo o trabalho terminava, se juntava todo o produto numa das bordas do campo para ser desfolhado.

            As desfolhadas eram um espetáculo de cooperação da sociedade. Feitas geralmente à noite quando não mais havia sol, mas muito calor, como são as noites de verão em Portugal. Os donos ofereciam pão e vinho e toda a vizinhança parecia para tirar as espigas de seu folhato, alguns até usavam um prego para facilitar a retirada. Apareciam muitos jovens e muitos namoros começaram nas desfolhadas. Cantava-se  toda a noite até o término do trabalho, nisto o vinho auxiliava e muito.

            Uma vez terminada esta tarefa as espigas eram carregadas em cestos para carros de bois ou vacas e levadas para as eiras, onde seriam expostas ao sol até secar. Parte delas era recolhida em canastros ou espigueiros, de onde seriam retiradas conforme a necessidade.

Outra parte eram malhadas na eira onde os grãos recolhidos em arcas seriam aos poucos transformados em farinha nos moinhos da família ou coletivos.

            Os malhos tinham um cabo não muito grosso e no final, preso por couro de boi, um pedaço roliço de árvore com que se batiam as espigas até deixar livres os grãos. Minha família tinha um moinho movimentado a água, mas no verão, quando as águas eram poucas não funcionava. Várias vezes dormi com um empregado da casa no moinho, quando era necessário funcionar a noite inteira, para produzir a farinha.

            Nos meses de setembro e outubro, tínhamos de levar o grão para moer ne freguesia da Esperança, onde ficavam as turbinas da Represa do Ermal no Rio Ave. Eram cerca de 5 a 6 km de distância. Íamos a pé por caminhos, trilhas e campos de cultivo, levando cada, um saco de grãos de milho. Geralmente ia com duas tias, levando horas para ir e voltar com a preciosa carga que durante 10 dias forneceria o pão, base de nossa alimentação.

            O pão era feito em casa, as mulheres amassavam a massa numa masseira de madeira. Á farinha de milho juntavam 10% de farinha de centeio, para dar consistência à massa, pois o milho não dá liga e esfarela facilmente. Cada casa tinha seu próprio forno de tijolo ou barro. Aquecia-se com madeira, por mais de uma hora, varria-se e colocavam-se as broas de cerca de cinco quilos cada uma. A porta era de madeira, betumada com bosta de vaca. O pão demorava pelo menos duas horas para estar pronto. Este ritual era realizado cada 10 ou 12 dias.

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About ecologiaespiritual

Profesor universitário aposentado, professor da academia do Corpo de Bombeiros RJ desde 1977. Escritor, Diplomado pela ESG 2002, Geógrafo, mestre em geoquimica, consultor de áreas de risco geológico, diplomado pela Michigan State University em Proficiência em Inglês, Professor do Curso Superior de Bombeiros Militar autor dos livros Sobreviver sem perder a Esperança (sobre morte de filho), Ecologia Espiritual (uma história do Corpo de Bombeiros no Brasil), Treasures of Brasil, além de trabalhos/livros técnicos: Recursos hidricos do Estado do RJ, Geonit (fundação geotécnica de Niterói). Laudos técnicos sobre Escorregamentos na Enseada do Bananal - Ilha Grande e Bumba (niterói)
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